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• Cultura Suíça, Curiosidades da Suíça

800 anos do Castelo de Oberhofen: dos Eschenbach ao advogado americano

Portão e ponte de calçada do Castelo de Oberhofen emoldurados por uma parreira, com a torre medieval ao fundo
A ponte de entrada, vista sob a parreira. Foto do arquivo Viagem Suíça.

Você chega em Oberhofen, vê a torre de enxaimel dentro da água e o jardim florido, e sai achando que visitou uma casa de veraneio elegante do século XIX. Isso é parte da história. A outra parte tem oitocentos anos, uma sucessão de donos, uma anexação militar, um bailio bernês, um embaixador da Prússia e um advogado americano.

Como eu visito castelos e palácios profissionalmente há anos, e como o nosso escritório funciona dentro de um deles, tenho um vício: antes de olhar a mobília, eu olho a parede e pergunto de que século ela é. Em Oberhofen essa pergunta tem muitas respostas, porque quase toda geração acrescentou alguma coisa e quase nenhuma derrubou o que estava antes. Este texto é a história completa, em ordem. Se você quer a parte prática, horários, valores e a visita sala por sala, ela está no guia do Castelo de Oberhofen.

A linha do tempo em uma tela

  • Por volta de 1200 Ergue-se a torre de menagem da fortaleza de água. Os von Eschenbach chegam a Oberhofen por casamento com a herdeira Ita.
  • Século XIV O domínio passa aos Habsburgo.
  • 1386 Depois da batalha de Sempach, Berna toma Oberhofen.
  • 1421 Castelo e senhorio ficam definitivamente com os Scharnachthal, uma das famílias mais ricas de Berna.
  • 1473 A capela é consagrada. As pinturas murais dela sobrevivem até hoje.
  • 1590 Com a morte do último Scharnachthal, o castelo passa aos von Erlach.
  • 1652 a 1798 Oberhofen vira sede de bailio bernês. Berna anexa ao distrito as jurisdições de Hilterfingen e Strättligen.
  • 1801 O castelo se torna propriedade privada.
  • 1844 Albert, conde de Pourtalès, compra a casa e a transforma em residência de verão.
  • 1849 a 1852 O arquiteto James Colin dá ao conjunto a roupagem neogótica que você vê hoje.
  • 1855 Fica pronto o salão de fumo oriental no alto da torre, projeto de Theodor Zeerleder.
  • 1925 Hans Albrecht von Harrach vende o castelo.
  • 1926 William Maul Measey, advogado americano, torna-se proprietário.
  • 1940 Measey transfere o castelo e o parque para uma fundação.
  • 1954 O museu abre ao público, como filial do Museu Histórico de Berna.
  • 2009 A fundação se torna independente.
  • 2013 Abre o restaurante à beira do lago.

Por volta de 1200: uma torre dentro da água

O começo de Oberhofen não tem nada de palaciano. O que existia era uma fortaleza de água, com uma torre de menagem maciça de pedra apoiada na margem do Lago Thun. Essa torre ainda está lá, no meio do conjunto, e é a peça mais antiga de tudo. Quando você olha a fachada do pátio, ela é a parte alta e cinza, sem ornamento, que destoa do resto.

O pátio e a torre do Castelo de Oberhofen, junto ao Lago Thun
O pátio e a torre do Castelo de Oberhofen, junto ao Lago Thun. Foto: arquivo Viagem Alemanha.

Quem chegou a Oberhofen por essa época foi a família von Eschenbach, uma casa ligada ao imperador com terras principalmente na região dos atuais cantões de Argóvia, Lucerna e Zurique. A entrada deles no Oberland se deu por casamento, com a herdeira Ita. A lógica era a de sempre naquele século: um casamento bem colocado valia mais que uma campanha militar, e um ponto de controle na margem de um lago navegável valia dinheiro todo ano.

Torre de menagem medieval do Castelo de Oberhofen acima das ameias, com o portal esculpido à direita
A torre de menagem, a parte mais antiga do conjunto. Foto do arquivo Viagem Suíça.

1386: Berna chega, e não sai mais

No século XIV o domínio passou aos Habsburgo. E aí entra a data que qualquer suíço reconhece: 1386, a batalha de Sempach, em que a Confederação derrotou o duque Leopoldo III da Áustria. Depois de Sempach, Berna tomou o domínio de Oberhofen para si.

A cidade não ficou com ele por muito tempo naquele momento. Ainda no fim do século XIV o domínio passou a Ludwig von Seftigen e à família von Scharnachthal, e as fontes divergem sobre a repartição. Em 1421 o castelo e o senhorio ficaram definitivamente com os Scharnachthal, uma das famílias mais ricas e influentes de Berna. Foram eles que construíram boa parte do corpo residencial do fim da Idade Média em volta da torre antiga, e foi sob eles que a capela foi consagrada, em 1473.

Os afrescos que atravessaram tudo

A capela é o lugar onde a Idade Média sobreviveu intacta em Oberhofen. Nas paredes há pinturas murais com santos de auréola dourada, cenas de martírio e uma figura de rabo enrolado logo acima do arco. Elas passaram pela Reforma, pelos bailios berneses, pela reforma neogótica do século XIX e pela transformação em museu. Estão desbotadas em partes, com áreas inteiras perdidas, e é justamente isso que dá a elas o efeito que têm.

Faixa de afrescos medievais na capela do Castelo de Oberhofen, com figuras de auréola dourada, um monte de corpos e uma criatura de rabo enrolado
  • 1A vara e a auréola
  • 2O monte de corpos
  • 3A faixa vermelha da moldura
  • 4A figura mais preservada
  • 5O manto verde
  • 6A criatura de rabo enrolado
  • 7O arco gótico
A faixa pintada acima do arco, na capela consagrada em 1473. Toque nos números para ver o que sobrou de cada cena. Foto do arquivo Viagem Suíça.

Em 1590, com a morte do último dos Scharnachthal, o castelo passou aos von Erlach, outra família patrícia bernesa. E então veio a mudança que transformou a casa em máquina administrativa.

1652 a 1798: o castelo vira repartição pública

Com a morte de Franz Ludwig von Erlach, o feudo, que era concedido só por linha masculina, voltou para a República de Berna em 1652, apesar dos processos movidos pela viúva. Berna instalou ali um bailiado, com sede oficial no castelo, e somou ao distrito as jurisdições inferiores de Hilterfingen e Strättligen. Durante quase cento e cinquenta anos Oberhofen foi as duas coisas ao mesmo tempo: os bailios moravam no castelo e despachavam dali, e foi nesse período que a fortaleza terminou de virar palácio.

Esse período deixou marca no próprio volume construído. Foi como sede de bailio que o conjunto foi ampliado e deixou de ser uma fortaleza para virar, de fato, um Schloss. Quem chega hoje pelo pátio vê o resultado disso antes de ver qualquer outra coisa: um corpo de edifício grande demais para uma guarnição e do tamanho certo para uma administração.

Parterre de flores do Castelo de Oberhofen diante da fachada com persianas listradas de azul e branco
A fachada ampliada no tempo dos bailios, sobre o parterre. Foto do arquivo Viagem Suíça.

O regime dos bailios acabou em 1798, com a invasão francesa e o fim do Antigo Regime suíço. Em 1801 o castelo virou propriedade privada, e ficou aberto o caminho para o capítulo mais extravagante da história dele.

1844: o conde que trouxe Istambul para o Lago Thun

Em 1844, Albert, conde de Pourtalès, comprou Oberhofen. Ele vinha de Neuchâtel, que naquele momento ainda era principado prussiano, e transformou o castelo em residência de verão. Entre 1849 e 1852 encarregou o arquiteto James Colin de refazer o conjunto em estilo neogótico. Colin acrescentou a nova fachada da torre, a torre da escada que leva à capela, torres de canto, a torrinha do relógio, novos volumes de telhado e ameias. E reconstruiu a torrinha do lago, aquela de enxaimel que hoje é o cartão-postal do castelo: a original tinha sido demolida depois de 1680, junto com a ponte de acesso.

É por isso que Oberhofen parece um castelo medieval mais completo do que realmente é. Boa parte das ameias e dos torreões é romantismo do século XIX aplicado sobre pedra de por volta de 1200, e isso não é defeito: é uma camada histórica como qualquer outra, e uma das mais bem executadas da Suíça.

Na Deutsche Burgenvereinigung, a associação alemã de castelos de que eu faço parte, essa discussão é velha. Quanto de um castelo é medieval de verdade e quanto é o século XIX imaginando a Idade Média. Em Oberhofen dá para separar as duas coisas a olho nu, e é por isso que ele funciona tão bem como primeiro castelo de uma viagem.

Pourtalès tinha sido embaixador da Prússia em Istambul, e trouxe de lá o gosto que se materializou na sala mais surpreendente da casa. Em 1855, sobre a torre de menagem medieval, ficou pronto um salão de fumo em estilo oriental, com projeto do arquiteto bernês Theodor Zeerleder: teto de estrelas, treliças de madeira torneada, apliques dourados, vitrais coloridos e divãs baixos em volta. Uma sala otomana no alto de uma fortaleza suíça, com vista para os Alpes berneses. A restauração completa desse salão levou de 2010 a 2012.

Biblioteca do Castelo de Oberhofen com escada de biblioteca, lareira de mármore e estantes até o teto
A biblioteca, com a escada móvel.
Torre de enxaimel do Castelo de Oberhofen vista da margem, ao nível da água do Lago Thun
A torre do lago, vista da margem.

O parque também é obra desse período. A partir de 1850, os Pourtalès redesenharam o antigo pomar em duas partes: o jardim interno de parterres geométricos e o parque paisagístico que desce até a margem. A casa do jardineiro é de 1855 e 1856, a laranjeira funciona desde 1862 e o chalé das crianças é de 1853.

Lago Thun e a crista do Stockhorn vistos de uma janela do Castelo de Oberhofen
A vista que o conde comprou junto com a casa. Foto do arquivo Viagem Suíça.

1926: o advogado americano que salvou o castelo

Em 1925, Hans Albrecht von Harrach vendeu a propriedade. O comprador foi William Maul Measey, advogado americano da Filadélfia, formado em direito na Universidade da Pensilvânia, que se tornou proprietário no ano seguinte. Ele acrescentou ao parque o vale das coníferas e a cruz suíça florida na beira da água, um parterre de vinte e seis metros quadrados feito para ser visto do lago, com cerca de mil e oitocentas mudas replantadas a cada ano.

Mas a contribuição decisiva de Measey não foi paisagística. Em 1940 ele transferiu o castelo e o parque para uma fundação, em vez de deixá-los seguir o destino comum das casas grandes daquele século, que foi o desmembramento ou o abandono. Em 1952 a fundação passou ao Museu Histórico de Berna, e em 1954 o museu residencial abriu ao público. Em 2009 a fundação voltou a ser independente, de direito privado, e é ela que administra o castelo hoje. Em 2013 abriu o restaurante à beira do lago, e em 2024 voltaram ao percurso salas restauradas como a de bilhar, o banheiro de 1904 e o quarto de hóspedes.

Sem aquele gesto de 1940, provavelmente não haveria visita nenhuma. Vale lembrar disso quando você estiver subindo os degraus da torre.

A outra história: quem fazia a casa funcionar

Eu recomendo Oberhofen mesmo para quem já enjoou de castelo, e o motivo é a exposição permanente dedicada aos criados. Enquanto o andar nobre conta a vida por volta de 1900 com damasco e prataria, a ala de serviço conta a mesma década pelo avesso: a cozinha com fogão de ferro, os aventais no gancho, as escadas estreitas e os quartos no alto, com duas camas e uma mesinha no meio.

Quarto de criados no Castelo de Oberhofen com porta aberta para a despensa de louças
Quarto de serviço, com a despensa ao lado.
Projeção de texto em alemão sobre a cama de um quarto de criados no Castelo de Oberhofen
A projeção sobre a cama, na exposição.

Numa das camas, o museu projeta frases em alemão sobre o que essas pessoas sonhavam, e uma delas fala em roupas bonitas e finas como as que os patrões usavam. É um recurso simples, e você sai da sala pensando na distância entre dois andares da mesma casa.

O que sobrou de cada século

Se você quiser fazer a leitura do prédio enquanto anda, procure por estas camadas, todas visíveis num mesmo percurso:

  • Por volta de 1200: a torre de menagem maciça, sem ornamento, no meio do conjunto
  • Século XV: a capela consagrada em 1473 e as pinturas murais dela
  • Séculos XVII e XVIII: a ala oeste e a lógica de repartição pública do tempo dos bailios
  • 1849 a 1852: ameias, torres de canto, torrinha do relógio e a fachada neogótica de James Colin
  • 1855: o salão de fumo oriental no alto da torre
  • Por volta de 1900: os aposentos senhoriais e a ala dos criados como o museu os apresenta
  • Século XX: a cruz suíça florida no parque e a fundação que salvou o conjunto
Roseira florida e banco de pedra num nicho da muralha do Castelo de Oberhofen
Um banco de pedra num nicho da muralha antiga. Foto do arquivo Viagem Suíça.

Onde Oberhofen entra na história dos castelos suíços

Oberhofen faz parte dos cinco thunerseeSCHLÖSSER, com Thun, Hünegg, Spiez e Schadau, que dividem um cartão de entrada comum. É uma das concentrações mais densas de arquitetura senhorial do país, e dá para ver quatro deles em dois dias sem correr, usando o barco como transporte.

Se a sua viagem for temática, o par óbvio do outro lado do país é o Castelo de Chillon, no Lago Léman, que conta a mesma lógica de controle de rota com outro material. E a nossa rota dos castelos reais junta as duas pontas num roteiro só. Para conferir a informação oficial do próprio castelo, o site da fundação mantém a cronologia atualizada.

Viagem com história de verdade. Nós montamos roteiros de castelos e palácios na Suíça com acompanhamento em português, para quem quer entender o que está vendo e não apenas fotografar a fachada. Também organizamos eventos dentro do Castelo de Oberhofen, da capela ao terraço sobre o lago. O primeiro passo é o contato.

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Dúvidas frequentes sobre a história do castelo

Quantos anos tem o Castelo de Oberhofen?

A torre de menagem foi erguida por volta de 1200, o que dá cerca de oitocentos anos ao conjunto. O que você vê hoje reúne elementos que vão da torre de por volta de 1200 ao século XIX, com a última grande transformação entre 1849 e 1852.

Quem construiu o castelo?

A fortaleza de água original está ligada aos von Eschenbach, que chegaram a Oberhofen por volta de 1200 por casamento com a herdeira Ita. O corpo residencial do fim da Idade Média é obra dos Scharnachthal, e a aparência neogótica atual foi encomendada pelo conde Albert de Pourtalès ao arquiteto James Colin em 1849.

Por que o castelo pertenceu a Berna?

Berna tomou o domínio depois da batalha de Sempach, em 1386, e voltou a puxá-lo para si em 1652, quando morreu Franz Ludwig von Erlach e o feudo, concedido só por linha masculina, reverteu à cidade. De 1652 a 1798 o castelo foi sede de bailio bernês, ou seja, escritório do representante de Berna na região.

O que é o salão oriental do Castelo de Oberhofen?

É um salão de fumo em estilo oriental instalado em 1855 no alto da torre de menagem medieval, com projeto do arquiteto bernês Theodor Zeerleder. Foi encomendado pelo conde de Pourtalès, que tinha sido embaixador da Prússia em Istambul. Passou por restauração completa entre 2010 e 2012.

Como o castelo virou museu?

O proprietário americano William Maul Measey transferiu o castelo e o parque para uma fundação em 1940. Em 1952 a fundação passou ao Museu Histórico de Berna e o museu residencial abriu ao público em 1954. Desde 2009 a fundação é independente.

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Escrito por Raphael Almeida · Conteúdo revisado e aprovado por Rafaella Vilafranca, cofundadora da Viagem Suíça.
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