
Tem um vidro pequeno, com moldura de ferro, parafusado num pilar da prisão do Castelo de Chillon. Atrás dele, entre centenas de outros nomes riscados na pedra, dá para ler BYRON. Foi diante desse pilar que eu entendi por que um castelo de pedágio dos condes de Saboia virou um dos lugares mais visitados da Suíça. A resposta tem dois nomes: um prior de Genebra que passou seis anos preso aqui, quatro deles no subterrâneo, e um poeta inglês que ouviu essa história numa tarde chuvosa de junho de 1816.
Este texto é sobre os dois, sobre o que a masmorra tem de verdade e de lenda, e sobre como visitá-la. O guia completo do castelo, com todas as salas, horários e o roteiro pela Riviera, está aqui: Castelo de Chillon: o guia completo, com fotos nossas.
Quem foi François Bonivard
François Bonivard nasceu em 1493 e era prior de Saint-Victor, um mosteiro em Genebra. Nas brigas entre a cidade e o duque de Saboia, ele ficou do lado de Genebra. Em 1530 foi preso pelo exército saboiano e levado para Chillon, onde passou seis anos. Parte da pena ele cumpriu no subterrâneo, na quase escuridão. A tradição, que vem de uma nota do próprio Byron e que o painel do castelo repete, diz que ele ficou acorrentado ao quinto pilar. Foi libertado em 1536, quando os berneses tomaram o castelo, e morreu em 1570, depois de escrever as suas Chroniques de Genève.
É nas crônicas que ele descreve a cela, e a frase, que o castelo reproduz num painel ao lado da prisão, explica boa parte do mito:
Bonivard acreditava estar abaixo do nível da água. Não estava. O subterrâneo fica alguns metros acima da água, e as aberturas estreitas na parede dão direto para o lago. Preso ao pilar, sem conseguir chegar até as frestas, o que ele percebia era o bater das ondas e o reflexo da luz na água, tremendo no teto. Dá para entender o pavor.

A masmorra de verdade
A palavra masmorra engana. O que você encontra no fim dos subterrâneos de Chillon é uma sala longa, com abóbadas góticas de nervuras e uma fileira de pilares de pedra, construída no século XIII pelos mestres de obras de Pedro II de Saboia. O chão é a própria rocha da ilha, irregular, subindo e descendo. Um poste de madeira com anéis de ferro e uma corrente curta marca, junto ao pilar, o lugar onde os prisioneiros eram presos. A luz que entra pelas aberturas é fria e azulada; a dos refletores, amarela. Entre as duas, a pedra parece mudar de cor a cada passo.

- 1O poste de madeira com a corrente curta e a argola: marca o lugar dos prisioneiros junto ao pilar.
- 2A fileira de pilares de pedra. François Bonivard passou aqui quatro dos seis anos de prisão. A corrente no quinto pilar é tradição, repetida pelo painel do castelo.
- 3As abóbadas góticas de nervuras, erguidas no século XIII pelos mestres de obras de Pedro II de Saboia.
- 4O chão irregular é a própria rocha da ilha, poucos metros acima da água.
- 5A parede de rocha crua: a ilha de calcário atravessa o edifício de um lado ao outro.



Os pilares merecem uns minutos. Cada um é um livro de visitas em pedra: iniciais, datas e, aqui e ali, um sobrenome inteiro, riscados por gente que veio aqui por causa de um poema. O castelo hoje proíbe, claro, mas as camadas mais antigas ficaram, e é nelas que está o nome mais famoso.
Byron, junho de 1816
Em junho de 1816 Lord Byron e Percy Shelley percorriam o Léman de barco. Pararam em Chillon, entraram na prisão, ouviram a história de Bonivard. Nas semanas seguintes Byron escreveu The Prisoner of Chillon, um poema narrativo em que o prisioneiro conta, em primeira pessoa, os anos acorrentado ao pilar, a morte dos irmãos na mesma cela, o pássaro que canta na fresta, e a estranha liberdade de quem acaba se acostumando às correntes. Historicamente é quase tudo invenção: Bonivard não tinha irmãos presos com ele, e nem o acorrentamento nem o pilar aparecem em documento nenhum da época: são de Byron, não da história. Não importou. O poema circulou pela Europa inteira e, na prática, inventou o turismo em Chillon.

E o nome no pilar? A tradição diz que foi o próprio Byron quem o gravou, naquela visita. Não há prova documental, e o castelo é honesto sobre isso, mas protege a inscrição com um vidro desde muito tempo. Eu prefiro acreditar. O pilar fica no meio da fileira, do lado da parede, e a moldura de ferro chama a atenção de longe.

Os pintores vieram atrás
O poema deu aos pintores um tema pronto. Jean-Léonard Lugardon pintou a libertação de Bonivard pelos berneses em 1824. Eugène Delacroix pintou O Prisioneiro de Chillon em 1834, com o prisioneiro esticando o braço acorrentado em direção ao irmão morto; o quadro está no Louvre. Gustave Courbet, exilado na Suíça, pintou o castelo visto de fora cerca de vinte vezes, uma delas em 1874. Antes de todos eles Turner já tinha feito uma aquarela do lugar, em 1809, e Rousseau já tinha colocado Chillon num romance, Julie ou la Nouvelle Héloïse, em 1761. Os números vieram junto: em 1939 o castelo passava de 100 mil visitantes por ano, e em 2019 chegou a 431.946.
Como visitar a prisão
Os subterrâneos são o começo do percurso numerado, logo depois da bilheteria e do primeiro pátio. Por isso ficam cheios no meio do dia, quando chegam os grupos e os barcos. Se a prisão é o seu motivo para ir, chegue na abertura (9h de abril a setembro) e vá direto para lá; volte às salas de cima depois. As passagens são estreitas, com escadas de madeira íngremes e piso de rocha irregular, então calçado firme ajuda. Na cripta ao lado há projeções de silhuetas medievais, e o folheto gratuito da bilheteria, disponível em português, explica cada sala. Horários e valores atualizados estão no site oficial do castelo.


Chillon com quem conhece os castelos
Nós montamos roteiros pela Suíça há doze anos, e castelos são a parte que eu, Raphael, cuido pessoalmente. Quando um cliente quer Chillon, a visita não é um ponto num mapa: nós oferecemos a visita guiada em português, privativa, com guia oficial do castelo, no primeiro horário da manhã, e desenhamos o resto do dia pela Riviera do Léman, de barco, a pé pela orla, com almoço em Montreux ou Vevey e Lavaux no fim da tarde. Quem gosta de história pode seguir dali pelo nosso roteiro pelos castelos da Suíça, que começa em Chillon. O jeito como trabalhamos, da primeira conversa ao roteiro fechado, está na página dos nossos serviços na Suíça.
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Dúvidas frequentes sobre o Prisioneiro de Chillon
Quem foi o Prisioneiro de Chillon?
François Bonivard, prior de Saint-Victor em Genebra, preso pelo duque de Saboia em 1530 e mantido seis anos em Chillon, parte deles acorrentado a um pilar do subterrâneo. Foi libertado pelos berneses em 1536.
Byron esteve mesmo em Chillon?
Sim, em junho de 1816, com Percy Shelley, durante uma viagem de barco pelo Lago Léman. O poema The Prisoner of Chillon foi escrito logo depois.
O nome de Byron no pilar é verdadeiro?
A inscrição existe e está protegida por um vidro. A tradição atribui a gravação ao próprio poeta, mas não há prova documental.
A prisão fica mesmo abaixo do nível do lago?
Não. O piso dos subterrâneos está alguns metros acima da água, com aberturas diretas para o lago. Bonivard, sem conseguir chegar até elas, acreditava estar abaixo da superfície.
Dá para ver a prisão sem visitar o castelo inteiro?
A prisão está dentro do percurso normal, logo no começo. Com o ingresso do castelo você entra nela e depois segue, ou não, para as salas de cima.

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